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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

BASTIDORES DA II GUERRA

NA SOMBRA DOS GIGANTES

A obra de Lynne Olson, “Churchill e Três Americanos em Londres”, da Globo Livros (SP, 2013), Tradução de Joubert de Oliveira Brízida, que resumimos nesta nova série, nos oferece uma visão sobre a II Guerra que não consta na maioria dos livros e que não chega aos bancos escolares.
Quando vemos as fotos dos encontros dos três grandes (Roosevelt, Churchill e Stalin) reunidos em Yalta ou Teerã, elas não deixam antever as terríveis tensões e desentendimentos que apenas os bastidores presenciaram. Com base em entrevistas, livros auto biográficos, diários, documentos oficiais, extra-oficiais e secretos e mais um sem número de fontes, Lynne Olson nos leva para dentro destes bastidores.
O primeiro ângulo de nosso passeio vai mostrar três figuras cujos papéis foram relativamente esquecidos, diante da importância que se conferiu aos líderes de seus países, mas que foram fundamentais para que a guerra tivesse o desfecho que teve.
O primeiro deles é Edward R. Murrow, repórter da CBS enviado a Londres sendo acolhido na BBC de onde transmitia suas reportagens para os EUA.
Durante os bombardeios contra Londres, levados a cabo pela Luftwaffe, sob comando de Hermann Göring e ordens de Hitler, Murrow levou para dentro dos lares americanos todo o drama da guerra que era possível transmitir pelas ondas do rádio.
Edward Murrow no estúdio de rádio
As transmissões de Murrow fizeram com que os americanos sentissem a agonia que reinava em Londres, compartilhassem a dor dos ingleses com o estrangulamento lento da nação pelos ataques que destruiam as cidades e pelo racionamento progressivo de todos os bens essenciais à sobrevivência do povo inglês, por conta da ação dos U-Boats, os submarinos alemães que afundavam quantidades impressionantes de navios com cargas preciosas direcionadas à Grã-Bretanha.

A Blitz era perfeita para o rádio: podia ser transmitida em tempo real, tinha drama humano e, sobretudo, som — o gemido das sirenes, o sibilo das bombas, a explosão e o estrondo dos canhões antiaéreos. Nenhum outro meio podia levar aos lares americanos a realidade de um ataque aéreo de maneira tão poderosa. (pg. 37)

Londres sob ataque.
Churchill visita áreas atingidas pelos bombardeios.
O trabalho de Murrow fez com que um sentimento de solidariedade surgisse entre o povo americano e se tornasse, aos poucos, uma pergunta: não devemos fazer algo a respeito? E essa era a intenção do repórter, solidário com o povo inglês.
Sua defesa sistemática do envolvimento dos EUA na guerra para socorrer a Inglaterra lhe angariou a simpatia de Churchill, com quem passou a ter encontros frequentes a ponto de tornar-se íntimo da família do Primeiro Ministro. 
 
A neutralidade da América, que seus patrões apoiavam, era uma política que não funcionava, julgava Murrow, pois falhava em levar em conta a estrondosa diferença moral entre a Alemanha názi e os aliados. Quando cobriu a incorporação da Áustria à Alemanha em 1938, Murrow testemunhara brutamontes názis incendiando lojas de propriedade de judeus, forçando rabinos a se ajoelharem para esfregar calçadas, e chutando judeus até a inconsciência. (pg. 38)

Mas a América, na pessoa de Roosevelt, e muito pela nefasta influência de Joseph Kennedy (embaixador e pai do futuro presidente), relutava em entrar na guerra e apenas lentamente foi trilhando a estrada do envolvimento. Neste caminho, chegamos a nosso segundo personagem, W. Averell Harriman.
Harriman
Harriman era, bem resumidamente, um “vigoroso e agressivo homem de negócios” quando decidiu ter um papel de importância política no mundo em que vivia e, através de uma constante busca de influência, conseguiu que Roosevelt o nomeasse para chefiar o programa Lend-Lease, que pretendia suprir as necessidades inglesas de suprimentos civis e militares. Mas não havia entusiasmo do Presidente:

Na realidade, até aquele momento, Roosevelt tinha mostrado pouco interesse em nomear Harriman para qualquer função de importância. No decorrer dos trinta e cinco anos de conhecimento mútuo, o Presidente não se impressionara quer pela inteligência, quer pela personalidade do homem de cabelos escuros e queixo quadrado sentado diante de si do outro lado da escrivaninha. (pg. 53)
Comboios de carga sob ataque dos submarinos alemães

Moças das forças voluntárias inglesas descarregam rifles vindos dos EUA.

As cargas do Lend-Lease.
Apesar de passar maus bocados por conta do desinteresse de Roosevelt em dar ao Lend-Lease a rapidez que precisava e a urgência dramática que Churchill lhe conferia, o cargo propiciou a Harriman acesso aos mais altos escalões da administração inglesa, o que significa a pessoa do próprio Churchill.
E essa relação alcançou níveis perigosamente íntimos! Harriman tornou-se amante de Pamela Churchill, nada menos que a esposa do filho do Primeiro Ministro! A nora de Churchill teve vários envolvimentos amorosos, inclusive com Edward Murrow, com quem quase se casou.
Pamela Churchill
Harriman entre Churchill e Stalin, com Molotov ao lado.
Voltando a Harriman, sua ambição o fez causar intrigas que tinham o objetivo de fazê-lo chegar nos cargos que almejava e a causar dificuldades aos embaixadores americanos em Londres e Moscou, mas, apesar das atitudes reprováveis e da intensa agenda social, é inegável que Harriman trabalhou duro até que o programa Lend-Lease pudesse, de fato, tornar-se operacional e ajudou muito na tarefa hercúlea de vencer as resistências entre americanos e ingleses, especialmente entre Roosevelt e Churchill.
E, por falar em embaixadas, chegamos ao terceiro personagem: John Gilbert Winant.
Embaixador Winant.
Winant, foi aluno e professor em Saint Paul e governador de New Hampshire, onde implantou um eficiente sistema de proteção social para os trabalhadores e os mais carentes. Segundo Lynne Olson, Winant era um idealista com extraordinário carisma, capaz de despertar simpatia imediata e de liderar grupos nas tarefas mais espinhosas, apesar de ser extremamente desorganizado.

Como chefe do executivo de New Hampshire, Winant foi homem bem à frente do seu tempo, dedicando-se por completo à justiça econômica e à mudança social, que se equiparavam ou eram até melhores que os instintos reformistas de Franklin Roosevelt [...] Durante a Depressão, o governador conseguiu pressionar vitoriosamente pela criação de novos e radicais programas de bem-estar estatal que acabaram formatando o New Deal, inclusive uma expansão das obras públicas, ajuda para os idosos, auxílio emergencial para as mulheres e crianças dependentes e uma lei de salário mínimo. (pg. 27)

Designado por Roosevelt como embaixador na Inglaterra, Winant foi recepcionado pelo próprio Rei George VI, na estação ferroviária, em uma quebra de protocolo sem precedentes na História, sinalizando a urgência inglesa em estabelecer sistemas de ajuda vinda dos EUA. O Rei George VI era o pai da Rainha Elisabeth e foi imortalizado como o rei gago no filme “O Discurso do Rei”.
O Rei George VI recebe Winant na estação de trem.
Mesmo as mais anti americanas autoridades civis e militares inglesas reconheciam o valor e o caráter do Embaixador Winant. O povo simples o conhecia e amava. Winant defendeu com todas as suas forças o envolvimento americano na guerra, estava sempre disposto a ajudar e caminhava pelas ruas após os terríveis bombardeios da Luftwaffe, confortando a população.
Seu trabalho incansável possibilitou que a aproximação entre Roosevelt e Churchill se desse de forma mais rápida. Sua aproximação com Churchill também foi intensa, e manteve relacionamento amoroso com Sarah Churchill, filha do Primeiro Ministro.
Churchill e Winant (chapéu na mão).

Sarah Churchill
Durante e após a guerra nossos três personagens, cada um a seu modo, alertaram os EUA para o risco que o mundo corria ante o crescimento soviético, mas não foram ouvidos.
Após a guerra Morrow tornou-se uma das estrelas do noticiário da CBS nos EUA, mas jamais esqueceu a Inglaterra e seu povo. Harriman manteve-se em alta junto aos presidentes subsequentes até Lyndon Johnson.

Mais de seis décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, Edward R. Murrow e Averell Harriman continuam sendo figuras bem conhecidas nos Estados Unidos. Incontestavelmente considerado patriarca fundador e santo patrono da radiodifusão de notícias, Murrow tem sido objeto de diversos livros e filmes. Uma organização líder do radiojornalismo — a Associação de Diretores de Noticiários do Rádio e da Televisão — confere anualmente o Prêmio Edward R. Murrow aos que se destacam na atividade. Diversas escolas em todo o país, inclusive a faculdade de comunicações da universidade em que estudou, a Washington State University, levam seu nome. Quanto a Harriman, o Council on Foreign Relations, em Nova York, concede bolsas Averell Harriman em estudos europeus, e a Universidade de Columbia sedia o Instituto Harriman para estudos russos, eurasianos e do leste europeu.(pg. 284)

Winant foi condecorado com a Order of Merit pelo Rei George VI, mas ficou depressivo com as recusas iniciais americanas em patrocinar o soerguimento da Europa. Ele não foi incluído nos trabalhos quando o Plano Marshall finalmente encaminhou as coisas neste sentido. Winant escreveu um livro de memórias que lhe ajudaram a recuperar um pouco as precárias condições financeiras, porém, depressivo e sentindo-se abandonado, Winant cometeu suicídio em 03/11/1947, aos 58 anos.
A notícia de sua morte causou imenso pesar na Inglaterra e entre os que o conheceram, incluindo ai a viúva de Roosevelt, Eleanor, de quem Winant era grande amigo.

Três semanas após o funeral de Winant, cerca de quinhentas pessoas compareceram a um serviço religioso, não anunciado, na St. Paul's Cathedral, em Londres, onde o primeiro-ministro Clement Attlee leu trecho da Bíblia: “As almas dos corretos estão na mão de Deus, e nenhum tormento as tocará.” Winston, Clementine e Sarah Churchill estavam presentes...(pg. 281)

Se os leitores me permitem um depoimento pessoal, ao ler o livro fui percebendo, e me entristecendo, com o abandono a que o ex-embaixador e seus nobres ideais para o mundo pós-guerra foram submetidos. Sua espiral depressiva é perceptível, mas a revelação de seu suicídio foi surpreendente e particularmente dolorosa. Confesso que fui às lágrimas com o desperdício deste que me pareceu um tão nobre espírito. Lamento profundamente...

A AGONIA DE LONDRES1
É difícil, quando se vive tempos de paz, imaginar uma grande metrópole como Londres na linha de frente de combates mortais. Por mais que tenhamos fotos e filmes, elas não são capazes de transportar quem observa para dentro de todo aquele horror. Fotos e filmes não têm cheiro, o som das explosões não colocam nossas vidas em risco.
Na Londres de 1940, e até 1945, o medo e as privações (estas alongadas muito além do final da guerra), eram companheiros constantes dos londrinos, sem distinção de classe, principalmente com o advento das bombas voadoras.
Tal atmosfera sombria, porém, já se desenhava bem antes dos ataques:

Em Londres, os sinais da guerra estavam por todos os cantos. Barricadas de sacos de areia e de arame farpado protegiam o Parlamento, o nº 10 de Downing Street e outros prédios governamentais, enquanto balões de barragens, presos a cabos, flutuavam sobre a cidade. Soldados e policiais montavam guarda em pontes e túneis, atentos contra possíveis sabotadores. As vitrines das lojas eram cobertas por painéis de madeira ou tinham coladas faixas de papel marrom para evitar que estilhaçassem com as explosões das bombas. Os espalhafatosos anúncios luminosos de Picadilly Circus e as marquises iluminadas dos teatros do West End permaneciam apagados em virtude de blackout, e as águas não mais dançavam nos chafarizes de Trafalgar Square.(pg. 42)

Quando, a partir de 07/09/1940, as ordens de Hitler desviaram os aviões da Luftwaffe das bases da RAF para as cidades, tornou-se comum a audição do ronco dos motores, o avistar das imensas formações de bombardeiros e a impressionante vista da cidade mergulhar em explosões, colunas de fumaça e o céu se avermelhar com os incêndios, desmoronamentos, gritos, choro.

...Londres iria sofrer cinquenta e sete noites seguidas de incessante bombardeio. Até então, nenhuma outra cidade na história havia sido submetida a tão furioso ataque;(pg. 46)

Bombardeios da Luftwaffe
Esquadrilhas de bombardeiros cruzam o Canal da Mancha rumo a Inglaterra
Vigiando os céus de Londres.
Pilotos da RAF partem para atacar os invasores.
A artilharia anti-aérea inglesa em plena atividade noturna.
Os programas de Edward Murrow foram muito bem sucedidos na transmissão da resistência do povo londrino e na identificação dos verdadeiros heróis:

Na Batalha de Londres, as tropas da linha de frente não eram os ricos e bem-vestidos do West End, e sim os bombeiros, os guardas, os médicos, as enfermeiras, os clérigos, os reparadores de linhas telefônicas e outros trabalhadores que todas as noites arriscavam suas vidas para ajudar os feridos, coletar os mortos e fazer a cidade assediada voltar à vida.(pg. 48)

O povo comum, sem função pública diretamente relacionada aos consertos, também enfrentava bravamente as adversidades, andando vários quilômetros para chegar ao trabalho depois de noites mal dormidas nos abrigos, enfrentando desvios dos bairros atingidos.

A despeito do medo, da dor e da destruição causados pela Blitz, havia uma excitação no ar, uma aura de energia quanto a viver em Londres durante aquele período que, na opinião de muitos que lá estavam, jamais seria igualado. A ameaça da morte parecia apenas engrandecer o regozijo e a elevação da alma pela sobrevivência...(pg. 49)

Rua recém bombardeada desobstruída e pessoas transitando em Londres.
A busca de proteção nos túneis durante os ataques nazistas.
Bombeiros combatendo incêndios após bombardeio.
Noites e noites passadas nos abrigos.
A despeito da coragem resoluta, Londres emagrecia. O trabalho dos submarinos alemães no isolamento da ilha estava dando resultados crescentes em tonelagens de navios afundados. Lynne Olson informa que a Inglaterra chegou “...perto da extrema fome como jamais esteve durante toda a guerra...” e que legumes, verduras e frutas simplesmente desapareceram e o racionamento de alimentos chegou ao extremo de permitir o consumo de “trinta gramas de queijo e a uma quantidade mínima de carne por semana, e a 250 gramas de presunto e margarina por mês...”.
Com a interminável sucessão de semanas e meses, porém, a moral do povo começou a declinar. O Embaixador Winant afirmou, segundo Lyne Olson, que:

A fadiga e a monotonia... os transportes interrompidos... a poeira... as roupas esfarrapadas e gastas... o tédio que surge com o desejo de coisas... nenhum vidro para reparar as vidraças ... tropeçar no blackout a caminho de casa... racionamento de eletricidade e combustível — tudo isso contribui para uma desanimadora imagem mesmo para os mais determinados. (pg. 74)

Quando, após o ataque japonês contra Pearl Harbour, os EUA finalmente entraram na guerra, isso não significou muito alívio ao sofrimento inglês. Em poucos meses o país recebeu a invasão de quase dois milhões de combatentes americanos que ocupavam cada metro disponível de solo.
Se, por um lado, isso trouxe uma movimentação da economia nos serviços demandados pelos exércitos, por outro a gritante diferença entre o tratamento dispensado às tropas americanas, que dispunham de tudo do bom e do melhor em artigos que não eram disponibilizados aos ingleses, gerou um sentimento de inferioridade e ressentimentos.
Com a execução da Operação Overlord, o desembarque na Normandia, e a partida da maioria dos soldados, a Luftwaffe praticamente desapareceu dos céus da Inglaterra, mas em seu lugar chegaram as bombas voadoras.
As bombas V-1, disparadas dia e noite de bases na França e na Holanda, chegavam zunindo como um motor de motocicleta e semeavam terror e destruição. Segundo Lyne Olson elas “Choveram sobre a capital e seus arrabaldes, matando e ferindo mais de 330 mil pessoas, destruindo cerca de 25 mil casas e danificando 800 mil outras.

Bomba V-1
Flagrante de bomba V-1 prestes a atingir Londres.

A singela e ineficaz tentativa de proteção.
Ninguém estava a salvo pois as bombas não possuiam alvo definido que não fosse Londres e quando uma delas se aproximava era preciso imaginar, pelo barulho, onde iria cair: “um silvo distante que ia escalando até um alto rugido, seguido de alguns momentos agonizantes de silêncio quando o motor parava e a V-1 mergulhava na direção do solo. Para muitos, o estresse de ouvir a bomba desligar e esperar pela explosão se tornou quase insuportável.” (pg. 240)

Churchill visita Manchester.

O Rei George VI e a Rainha Elisabeth.

A Princesa (e futura Rainha) Elisabeth, voluntária no serviço de ambulâncias.

Inverno gelado em uma cidade cheia de ruínas e com o carvão para aquecimento racionado.

Flagrante do momento exato de uma explosão nas docas.
Os próprios Eisenhower e George Patton estiveram com suas vidas em risco pelos ataques das V-1. As memórias de Churchill, citadas por Olson revelam o pesadelo que os londrinos viveram naqueles dias:

O homem que voltava de noite para casa nunca sabia o que encontraria; a esposa, sozinha o dia todo com os filhos, não tinha a certeza do retorno do marido em segurança. A cega natureza impessoal do míssil fazia com que a pessoa em terra se sentisse indefesa. Havia pouca coisa que se podia fazer, nenhum inimigo humano que pudesse ser abatido. (pg. 239)

Mas, quando parecia que a situação não poderia piorar, as V-1 foram substituídas pelas V-2. Elas eram maiores, carregavam mais explosivos e chegavam aos alvos em silêncio, tornando a busca de refúgio virtualmente impossível. Mais de mil dessas caíram sobre a cidade vitimando cerca de três mil pessoas e obrigaram mais de um milhão a deixar a capital. Londres ficou quase deserta.

Bomba V-2 em sua plataforma de lançamento.

V-2 iniciando da descida rumo ao alvo.
Gigantesca explosão em Londres.
Socorro aos feridos.

A destruição catastrófica.
Com a derrota e rendição da Alemanha, e o fim da guerra na Europa, a partida dos aliados que tinham seus quartéis-generais em Londres deixou a cidade ainda mais solitária. E com o agravante de que não havia mais a movimentação da economia que a presença dos estrangeiros, especialmente os americanos, proporcionava.
E se o leitor acha que o pior já passara, pode achar isso em termos militares, porque o pior em termos de privações estava apenas começando, pois logo os suprimentos do programa Lend-Lease, as exportações americanas, foram cortados:


Oito dias após a rendição do Japão, Harry Truman, sucessor de FDR, cancelou os embarques de suprimentos alimentícios do Lend-Lease para a Inglaterra, sem qualquer aviso prévio ao governo britânico. […] No outono de 1945, a oferta de alimentos para os ingleses alcançou seu menor nível em seis anos. Em vez de ser suspenso quando a guerra acabou, o racionamento de alimentos no país se tornou consideravelmente mais restritivo. A porção de bacon foi reduzida em 25 por cento apenas dias após ser declarada a vitória sobre o Japão, e as filas do pão, das batatas e de outros vegetais, muitas vezes aumentaram um quarteirão no comprimento. (Pão e batatas logo também seriam racionados.) (pg. 267)



A destruição deixada pelos ataques da Luftwaffe e das bombas voadoras deixou um saldo de 40% das casas da cidade inutilizáveis por longo tempo e a Inglaterra sofreu um processo de favelização de suas cidades, por conta dos barracos e acampamentos que proliferaram para atender aos milhões de desabrigados.
Por fim os americanos concordaram em ajudar a reconstrução da ilha por meio de empréstimo e desconto no pagamento das mercadorias do Lend-Lease. Apesar disso, as feridas inglesas permaneceram ainda por longo tempo:

...os Estados Unidos concordaram em ajudar a Inglaterra a sair de sua crise financeira com um empréstimo de 3,5 bilhões de dólares, pagáveis em cinquenta anos, e com generoso desconto no pagamento da ajuda do Lend-Lease já proporcionada. Dos 21 bilhões de dólares de débitos do programa Lend-Lease os ingleses deveriam saldar apenas 650 milhões. Mas a ajuda veio atrelada a um excessivo — e, do ponto de vista inglês, altamente injusto — preço: o endosso inglês a um plano de 1944, formatado em Bretton Woods, New Hampshire, que criava uma nova ordem econômica internacional, tornaria o dólar a moeda-referência do mundo, eliminaria o sistema de preferência imperial britânico e, de forma geral, beneficiaria substancialmente o comércio dos Estados Unidos. (pg. 269)

A última parcela do pagamento desse empréstimo foi quitada pela Inglaterra ao final de 2006.

ROOSEVELT x CHURCHIL1

A grande maioria dos livros didáticos de História abordam a II Guerra Mundial, assim como toda a História, de forma tão superficial que poderíamos dizer “passageira”. Explica seus motivos, suas fases, desfecho e consequências. Seria difícil fazer diferente, de modo que não é exatamente uma crítica.

A maior parte dos estudiosos que se debruçaram sobre o tema de forma aprofundada, ficam restritos à vasta documentação pública, civil e militar, e gravitando em torno dos grandes nomes: Hitler, Mussolini, Tojo, Stalin, De Gaulle, Roosevelt e Churchill. Certamente não há como fugir destes, pois seus feitos gigantescos fizeram com que figurassem no panteão da História, para o bem ou para o mal. Mas não raras vezes há um quê maniqueísta.

Daí a importância que dedicamos a esta obra de Lynne Olson, “Churchill e Três Americanos em Londres”. Os gigantes estão lá presentes, um deles no título, pois do contrário não passaria nem pelos editores, mas o foco não é Churchill, e sim os três americanos, e vários outros ao seu redor, que passam quase inominados pelos livros, mas que foram fundamentais na História.

O mais surpreendente, porém, é que ao focar personagens secundários, Lynne Olson desnuda os gigantes de uma forma tão impressionante que os arrasta ao nível do ser humano comum. Vejamos se o leitor concorda com essa visão...

Quem lê a maioria dos livros sobre o período forma a imagem de que os EUA demoraram a entrar na guerra, mas, enquanto isso, ajudaram a Inglaterra de todas as formas que poderiam, menos nos combates. E que, após Pearl Harbour, os EUA entraram de cabeça, aliaram-se aos ingleses em uma amizade que os levou até a Alemanha. Sim, em resumo de linhas bem gerais, foi isso mesmo. Mas a realidade que Lynne Olson nos revela é bem mais complexa.

ROOSEVELT PEDE APROVAÇÃO PARA DECLARAÇÃO DE GUERRA CONTRA O EIXO
De início, os dois povos só tinham em comum a língua inglesa, mas nenhuma compreensão cultural mútua, pelo contrário, nutriam preconceitos e cultivavam estereótipos arraigados entre si.

...seus líderes políticos e militares, de Churchill e Roosevelt para baixo, tinham pouquíssimo entendimento e conhecimento uns dos outros. Ignorantes a respeito da história e da cultura do futuro parceiro, os dois aliados tendiam a pensar em estereótipos quanto aos seus primos de além-mar, com escassa avaliação de suas respectivas dificuldades políticas e militares. Suspeitas, tensões, preconceitos e rivalidades ameaçaram descarrilar a nova e singular confederação antes mesmo que ela se firmasse. E os problemas foram exacerbados pela atitude condescendente inglesa em relação aos americanos e pelo ressentimento dos EUA com a Inglaterra.(pg. 15)

Diante do colapso que se aproximava, toda a comunicação, gestos e oratória de Churchill em direção aos EUA era um incessante cortejar ao Presidente Roosevelt. Este, em seus discursos, prometia tudo, menos entrar na guerra. Falava em urgência, mas a prática ficava distante disso. Surpreendente, porém, é perceber que os EUA “ajudaram” Hitler na tarefa de sangrar a Inglaterra ainda mais.

Em troca de cinquenta contratorpedeiros americanos bastante velhos, cedidos no verão de 1940, o governo Roosevelt exigiu que lhe fosse concedido o arrendamento por noventa e nove anos de bases militares na Terra Nova, nas Bermudas e em seis possessões inglesas no Caribe. A negociação, como todos sabiam, era bem mais vantajosa para os Estados Unidos do que para a Inglaterra, e o governo britânico ficou profundamente ressentido. Apesar disso, não teve alternativa e aceitou aquilo que considerou termos grosseiramente injustos. 
[...] 
Os ingleses sentiram-se ainda mais lesados quando os contratorpedeiros da Primeira Guerra Mundial chegaram. Dilapidados e obsoletos, eles não podiam ser empregados sem extensas e custosas reparações.

Quando a lei que proibia a exportação para nações em guerra foi modificada para autorizar a venda à Inglaterra, foi exigido pagamento à vista, em dólares, ficando o transporte por conta do comprador! O ouro inglês praticamente acabou, foi pedido empréstimo à Bélgica e a situação ficou tão crítica que “...o ministro das Finanças sugeriu ao Gabinete que considerasse a requisição de anéis de casamentos e outras joias daquele metal precioso da população inglesa.
O primeiro encontro de Roosevelt com Churchill ocorreu em 29/07/1918, ao final da Primeira Guerra Mundial, quando Roosevelt tinha 36 anos e Churchill 43. O americano guardou profundas recordações daquele dia. O inglês nenhuma. Roosevelt sentiu-se esnobado e Lynne Olson sugere que guardou ressentimentos por mais de 20 anos!

FDR ainda não tinha engolido o que considerava uma descortesia de Churchill. “Sempre desgostei dele, desde o tempo em que fui à Inglaterra em 1918,” disse o Presidente a Joseph Kennedy, em 1939. “Ele agiu como um pedante no jantar a que compareci, comportando-se como um lord, acima de todos nós.” (pg. 22)

Roosevelt assina o Lend-Lease

Churchill, ao lado de Gilbert Winant, assina o acordo Lend-Lease

Quando o programa Lend-Lease foi anunciado, Churchill percebeu que a Inglaterra seria ainda mais sangrada. E tornou-se realmente constrangedora a situação, considerando a importância que Roosevelt deu inicialmente ao programa, quando nomeou Averell Harriman para fazê-lo funcionar:

Senhor Presidente,” indagou um dos jornalistas, “qual a relação de Mr Harriman com a embaixada de lá? Ele representará diretamente o senhor?” Com um pigarro, Roosevelt replicou: “Não sei e não dou a mínima!” Quando outro repórter perguntou a quem Harriman se reportaria em Washington, o Presidente retrucou: “Não sei e não me interessa isso.” (pg. 55)

No decorrer da guerra, enquanto comandantes americanos e ingleses se digladiavam em teorias e planejamentos, cada um deles querendo para si e aos seus as glórias militares, sempre contidos pela determinação de Eisenhower em fazer as relações aliadas funcionarem, Roosevelt começava a impor cada vez mais seus pontos de vista e interesses, dando demonstrações de que considerava a Inglaterra como parte menos importante da aliança:

Quando a Inglaterra se opôs a uma proposta de se conceder acesso às companhias aéreas dos EUA a todas as rotas aéreas do mundo, Roosevelt enviou um telegrama a Winant, em novembro de 1944, a ser repassado a Churchill, dando a entender que os Estados Unidos poderiam interromper o auxílio do Lend-Lease caso os ingleses não aprovassem o plano. A mensagem era, na opinião de John Colville, “chantagem pura.” (pg. 253)

E, quando reunidos em Yalta, Roosevelt e Stalin pareceram formar aliança contra todos os pontos de vista de Churchill, chegando mesmo à descortesia pura e simples com o idoso Primeiro Ministro inglês:

Numa das sessões plenárias, Roosevelt e Stalin começaram a confabular antes da chegada de Churchill. Informado por um auxiliar que o primeiro-ministro aguardava do lado de fora, a resposta de FDR foi abrupta: “Ele que espere.”(pg. 256)


Acima: Encontro de Teerã. Abaixo: Encontro de Yalta.
A postura de Roosevelt permitiu que Stalin tivesse terreno livre para avançar sobre a Polônia e saísse do conflito como a segunda maior potência militar do planeta. Churchill anteviu todos esses riscos, assim como Averell Harriman, agora embaixador americano em Moscou, e Gilbert Winant, embaixador em Londres. E todos os alertas não foram suficientes para que Roosevelt agisse com mais dureza nas negociações com Stalin:

Roosevelt, dando toda a impressão de que não se preocupava em deixar a União Soviética como potência militar e política dominante no continente europeu, ainda piorou as coisas, na opinião de Churchill, ao dizer a Stalin em Yalta que planejava retirar as tropas americanas da Europa, inclusive da Alemanha, em dois anos. (pg. 256)



Winston Churchill. Abaixo o Primeiro Ministro com a Família Real.
Churchill, por seu turno, lutava contra os planos de dominação nazista na Europa, mas não queria sequer discutir a perda de partes do Império Britânico, pois segundo ele “não se tornara primeiro-ministro do Rei para presidir à liquidação do Império Britânico.” (pg. 221). Era contra o aumento de autonomia da Índia e resistiu a todas as tentativas de cessão de territórios ou de monopólios comerciais que mantinha com as demais regiões do império, no que era arduamente combatido por Roosevelt:

Temos de deixar patente aos ingleses, desde o início, que não seremos simplesmente o amigão que pode ser usado para tirar o Império Britânico de um aperto. (...) Creio que falo como presidente dos Estados Unidos quando digo que nosso país não ajudará a Inglaterra nessa guerra só para que ela continue capaz de tratar com desprezo povos coloniais.” (pg. 221)

O leitor deve estar atento ao fato de que os EUA queriam, eles mesmos, adentrar estes mercados. Quando políticos e militares americanos falam em liberdade, não é exatamente às pessoas comuns que se refere, mas, prioritariamente, aos negócios.

Por fim, o suposto e bem provável conhecimento de Churchill sobre o caso extra-conjugal de sua nora Pamela com Averell Harriman e depois com Edward Murrow, e de sua filha Sarah com o já casado Gilbert Winant, sem que se apresente um único registro de reprovação, não falam exatamente bem de um rematado conservador inglês, pelo que se depreende do relato de Lynne Olson.

Quando Randolph Churchill voltou à Inglaterra de licença e descobriu o caso, explodiu de raiva. Sua ira não derivava tanto do ciúme, disseram alguns amigos, mas de um sentimento de que havia sido traído por Harriman, com o qual criara até certa amizade quando, a pedido de seu pai, o acompanhara na missão no Cairo. Amargo, Randolph acusou os pais de cumplicidade com o adultério “debaixo do próprio teto deles,” em Chequers, e de só o fazerem por causa da importância de Harriman e dos americanos para a Inglaterra. (pg.181)



Averell Harriman - Gilbert Winant - Edward Murrow
Pamela Churchill - Randolph Churchill - Sarah Churchill
A deliciosa obra de Lynne Olson nos transporta aos bastidores aliados da II Guerra Mundial e o que “vemos e ouvimos” por trás das portas é surpreendente e, por vezes, chocante.

Hitler previra que a aliança entre americanos, ingleses e soviéticos desmoronaria por conta das diferenças intransponíveis entre eles. Constatar que ele quase acertou é assombroso. Perceber os comportamentos indefensáveis de nomes gigantes como Roosevelt e Churchill, Montgomery e Patton, que ressaltam a importância de nomes bem menos conhecidos como Harriman, Murrow e Winant, é algo que não se espera, embora não seja aceitável deixar de conceder humanidade (virtudes e defeitos) a esses homens que escreveram a História.  

Bem pensado, contudo, essas imperfeições humanas fazem com que os papéis desempenhados por Roosevelt e Churchill sejam, a despeito de tudo, talvez até maiores. A conclusão é que, se mesmo com todos esses defeitos, realizaram tais feitos extraordinários, bem fizeram por merecer o título de Gigantes da História.

FIM

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1Este artigo tem como fonte a obra de Lynne Olson, “Churchill e Três Americanos em Londres”, da Globo Livros (SP, 2013), Tradução de Joubert de Oliveira Brízida.

Imagens

http://scrippsmediaethics.blogspot.com.br/2013/11/the-ethical-eye-of-edward-merrow.html
Winston Churchill, W. Averell Harriman, Joseph Stalin, and Vyacheslav Molotov at Fourth Moscow Conference, Russia, Oct 1944 - United States Library of Congress
http://ww2db.com/image.php?image_id=15578
In The Same Boat: British Prime Minister Winston Churchill (from left) leaves Westminster Pier in 1942 with American politicians Harry Hopkins, John Winant and William Bullitt. At right is British Labor Party politician and First Lord of the Admiralty A.V. Alexander.
http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=123231825
http://www.bbc.co.uk/radio4/womanshour/03/2006_48_wed.shtml
http://www.bbc.co.uk/radio4/features/desert-island-discs/castaway/1feb3b9b
Winant, Roosevelt, Stettinius, and Hopkins aboard USS Quincy off Egypt, 14 Feb 1945
http://ww2db.com/image.php?image_id=13466
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