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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A MÃE DE TODAS AS BATALHAS - MOSCOU

Moscou - Praça Vermelha.


A BATALHA DE MOSCOU
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Neste texto fazemos um microscópico resumo do que foi a maior batalha da história, com base na obra “A Batalha de Moscou” de Andrew Nagorski, tradução de Paulo Castanheira, Editora Contexto.
Segundo Nagorski, esta foi a maior de todas as batalhas porque envolveu, no período oficial de “30 de setembro de 1941 até 20 de abril de 1942”, cerca de 7 milhões de soldados com quase 1,9 milhões de perdas soviéticas e mais de 600 mil alemães, entre mortos e feridos. Comparando com outras batalhas épicas, tais como Stalingrado, Gallipoli, Somme ou El Alamein, nenhuma delas, segundo o autor, sequer chega perto da disputa pela capital da URSS. Todas as informações que se seguem são originárias da obra em questão. As imagens de época são de vários sites e estão em domínio público e as atuais são do Google Street View.
Em 22 de junho de 1941 a Wehrmacht, com mais de 3 milhões de homens, mais de 3500 tanques, mais de 2700 aviões e cerca de 600 mil cavalos, iniciou a invasão da URSS, na maior operação guerreira invasiva da História da humanidade.
Os destinos dos 3 grupos de exércitos eram as cidades de Leningrado, Kiev e a jóia da coroa comunista, Moscou, centro político, industrial e de transportes do colosso soviético.
As três frentes de avanço das forças alemãs.
O grupo mais poderoso das forças de Hitler, justamente aquele destinado a tomar Moscou, atravessou o Rio Bug, na Polônia, em uma tempestade de fogo e aço que varreu as despreparadas e quase acéfalas forças de defesa do Exército Vermelho.
Rio Bug - Polônia.
Ignorando todos os avisos de que uma invasão alemã era iminente, Stalin chegou ao cúmulo de ordenar que suas forças não revidassem a um eventual ataque alemão, até certificar-se da motivação. Foi um passeio para as forças do III Reich! A maioria dos aviões da força aérea soviética foi abatida ainda no solo.
Minsk nos dias atuais.

Prisioneiros soviéticos em Minsk.
Aos poucos as cidades mais importantes foram caindo uma a uma, primeiro Minsk, depois Smolensk e logo a Wehrmacht estava a menos de 400 km de Moscou.
Smolensk nos dias atuais.

As Panzer-Gruppen de Heinz Guderian em Smolensk.

Defesas soviéticas em Smolensk.
Depois do choque inicial, Stalin passou a ação. Falou ao povo convocando todos à luta e à política de terra arrasada, manifestou sua fé na vitória e, ao mesmo tempo, mandou transferir, em absoluto segredo, o corpo de Lênin para a pequena cidade de Tyumen, mais de 1500 km distante de Moscou.
Tyumen nos dias atuais.
Mas os expurgos que ele mesmo levara a cabo anos antes, e que afastaram mais de 40 mil militares das forças armadas, a maioria mortos após julgamentos de fachada, deixaram as tropas sem comandantes experientes na maioria dos postos, agora ocupados por jovens recém-saídos das academias ou por devotados partidários sem nenhuma aptidão para a guerra.
As derrotas, portanto, sucediam-se e as rendições em massa somavam-se à calorosa receptividade inicial do povo para com os soldados alemães, que eram vistos, por conta da propaganda nazista, como libertadores do reinado de terror imposto por Stalin.
Diante desse quadro o tirano soviético reagiu adotando medidas que já experimentara: mais terror! Grupos de 10 soldados recebiam apenas uma arma, mas deviam lançar-se ao ataque mesmo assim e não podiam recuar, pois atrás deles havia os pelotões de caçadores de derrotistas e covardes, encarregados de fuzilar quem recuasse. Qualquer um que fosse considerado derrotista seria fuzilado, assim como suas famílias. O soldado que fosse feito prisioneiro e conseguisse escapar seria fuzilado ao retornar.
Hitler também deu sua inestimável contribuição para elevar o moral das tropas soviéticas. Ao contrário das promessas de propaganda, instalou nas regiões já ocupadas um regime de terror igual ou pior do que o de Stalin, caçando os judeus e escravizando brutalmente a população. Já no planejamento a ação na URSS previa a morte de milhões de pessoas pela falta de víveres que seriam desviados do povo para a manutenção das tropas invasoras. Além disso as cidades de Leningrado e Moscou deveriam ser literalmente riscadas do mapa. A notícia dos fuzilamentos em massa de soldados que se rendiam logo se espalhou pela frente de combate, assim como a prática de fuzilar mais de 50 pessoas por cada alemão morto pela resistência.
Entre esses dois terrores, a resistência soviética foi crescendo na medida em que diminuia a velocidade do avanço alemão.
A Wehrmacht avançava mais lentamente que o previsto. A resistência soviética aumentava muito além do previsto. Apesar de tudo, em meados de Julho, após a tomada de Smolensk, o Grupo de Exércitos do Centro, comandados por Fedor von Bock, estava pronto para iniciar o avanço final rumo a Moscou, se recebesse os reforços que deveriam vir do Norte e do Sul, concentrando forças para derrubar a cabeça da URSS.
Mas então Hitler deu uma força para seu colega ditador Stalin: exitou por cerca de 3 semanas expedindo diretivas para consolidar as operações em Leningrado, em Kiev e no Cáucaso. As ordens para Bock eram de assumir posição de defesa!
Apenas em setembro veio a ordem do avanço a Moscou. E mais uma vez os soviéticos levaram uma desvantagem terrível. Em Vyasma as forças vermelhas foram cercadas e aniquiladas em quase 100%. No início de outubro tanques alemães já estavam a cerca de 150km de Moscou. Mas, também nesta época caiu a primeira neve e na metade do mês as chuvas já ameaçavam o avanço alemão. Além disso, dois novos generais estavam para entrar em ação: Zhukov e o Inverno.
Kiev - Capital da Ucrânia - bombardeada.

Vyasma sob a invasão nazista.

Vyasma nos dias atuais.
O General Soviético Georgy Zhukov, responsável pela resistência de Leningrado, fora nomeado por Stalin para a defesa da capital e tentou, com apenas 90 mil homens, atrasar o máximo possível o avanço alemão até Moscou. O objetivo era ganhar tempo para fortalecer as defesas da cidade, obras para as quais todos os cidadãos foram convocados.
Mas em 16 de outubro, apesar de todo o preparo, da chuva e da neve que chegaram, a aproximação dos alemães fez com que Moscou sucumbisse ao pânico. Setores inteiros do governo, o corpo diplomático, fábricas inteiras eram evacuados e o que não podia ser transportado foi minado de explosivos.
Os serviços públicos deixaram de funcionar e a ausência da polícia representava o fim da ordem e a chegada do caos e da lei do mais forte. Os saques se espalharam das lojas de alimentos para todas as outras e, depois, para as residências abandonadas.
Nas estações ferroviárias lotadas a maioria dos que conseguiam embarcar deixavam quase todos os pertences para trás e quem tinha carro era, muitas vezes, arrancado de seus volantes, espancado e abandonado à própria sorte.
Por outro lado, também havia muitos que se juntavam às forças de defesa para lutar contra os alemães em proteção ao pais.
Stalin, após dias de exitação, decidiu permanecer em Moscou. Ele reassumiu as rédeas do governo da forma como sabia fazer melhor: instalou mais terror decretando a Lei Marcial em 19 de outubro. E logo o caos amainou e os saques pararam. E a construção das defesas da cidade se acelerou pois “...equipes de mulheres, ao lado de rapazes jovens demais para servir, construíam enormes redes de trincheiras, armadilhas antitanque e barreiras feitas de árvores derrubadas, entrelaçadas por arame farpado que, consideradas em conjunto, estendiam-se por milhares de quilômetros nas estradas que levavam à cidade.” (pg. 154).
Vítimas do terror de Stalin.

Mulheres de Moscou trabalhando nas defesas da cidade.
Ao mesmo tempo os soviéticos se prepararam para a eventual perda da capital. A maior parte dos edifícios mais importantes, inclusive o Teatro Bolshoi, foi preparada para demolição com explosivos quando os alemães estivessem instalados e agentes da NKVD (que depois viria a ser a KGB) receberam a missão de sabotar o inimigo e matar nazistas sempre que possível.
As defesas anti-aéreas da cidade eram fabulosas e causaram pesados danos aos alemães chegando a uma taxa estratosférica de 50% de abatimentos em um relato. Entre Dezembro/41 e Janeiro/42, 250 mil soldados foram deslocados da Sibéria (onde aguardavam um eventual ataque japonês que, descobriu-se pela espionagem, não viria), para defender a capital.
Mas o que elevou mesmo o moral das tropas vermelhas foi a parada de 07 de Novembro de 1941, 24º aniversário da Revolução Russa. 
07/11/1941 - As tropas soviéticas desfilam na Praça Vermelha, diante do "Camarada" Stalin.
Sob nevasca os soldados desfilaram na Praça Vermelha e os boatos sobre a fuga de Stalin chegaram ao fim, pois os soldados viram que o líder estava ali e marchavam diante dele. A notícia logo espalhou-se pelas frentes de combate, reavivando os ânimos.
A parada de 07 de Novembro de 1941, 24º aniversário da Revolução Russa, elevou muito o moral do Exército Vermelho. Mas nos parece que era mesmo o medo do terror stalinista o maior incentivador do soldado soviético.
Só isso explicaria o relato que Andrew Nagorski apresenta em sua obra, coletado de um soldado alemão sobrevivente, sobre um avanço soviético em ondas de soldados: “A 600 metros abrimos fogo e seções inteiras da primeira onda simplesmente desapareceram, deixando aqui e ali alguns sobreviventes caminhando resolutamente para frente. Era estranho, inacreditável, desumano.” (pg. 183)
Mas, o avanço alemão ainda tinha de enfrentar a lama que quase paralisou o avanço e dificultou o reabastecimento. Quando a lama endureceu com o frio, permitindo movimento mais rápido, os soldados passaram a sofrer com o frio que chegava a congelar o lubrificante dos veículos. 
Rasputitsia - A incontornável lama russa.
O frio foi tão intenso que os alemães passaram a se vestir até mesmo com roupas de mulher por sobre as fardas para se aquecer e chegavam a ter estalactites de gelo formados no rosto.
Soldados alemães semi-congelados no inverno russo.
Soldados alemães combatendo no inverno russo.
O filho de Stalin, prisioneiro dos alemães.
Muitos morreram congelados, como se lê no relato do veterano russo Albert Tsessarsky sobre o que viu nas margens do Rio Moscou, em Mozhaisk, e que Nagorski apresenta: “Um alemão morto usava um sutiã enrolado na cabeça, evidentemente para tentar proteger as orelhas do congelamento. Os outros estavam enrolados em tudo que encontraram para lutar contra o frio, e só usavam botas leves de couro.” (pg. 202)
As tropas siberianas que mudaram o curso da guerra marchando rumo ao combate.
Some-se isso tudo com a chegada dos tanques T-34 russos, bem superiores aos Panzer, a chegada das tropas siberianas, bem mais resistentes ao inverno, e entende-se como o pânico mudou de lado. A tomada de Moscou pelos alemães estava afastada, o recuo tornou-se inevitável e logo já estava entre 70 e 100km.
Rio Moscou - Mozhaisk - região de combates conhecida como "Vale da Morte".
Khimki - Periferia de Moscou - região mais perto da capital soviética na qual os alemães chegaram.
Em nossa opinião, o que se viu na Batalha de Moscou foi um confronto de ideologias mas, acima de tudo, um confronto entre dois sistemas de terror que se auto-alimentaram. Ao final, triunfou aquele que teve mais carne para enviar ao moedor.
Apesar de todo o atraso na invasão alemã e no avanço final a Moscou, causado por Hitler, do General Inverno e da capacidade militar do General Zhukov em organizar as defesas da capital soviética, foi o terror alemão que levou a população, inicialmente receptiva à invasão, a voltar a apoiar a URSS. E foi o terror stalinista que impulsionou soldados desarmados a lançarem-se ao ataque contra tanques e metralhadoras e a preferirem a morte ao recuo.
Dois monstros equivalentes se enfrentaram diante de Moscou. Infelizmente, apenas um deles foi derrotado.
FIM...
A infame Diretiva 21 -as ordens de Hitler para invasão da URSS.
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1Todas as informações desta série são baseadas na obra “A Batalha de Moscou” de Andrew Nagorski, tradução de Paulo Castanheira, Editora Contexto.


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