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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

INCONFIDENCIA MINEIRA

VISÕES DA INCONFIDÊNCIA

Iniciamos mais uma pequena mini-série nas nossas recordações dos tempos da Universidade. O texto que apresentamos hoje e nos próximos capítulos, traz resumos (mui resumidos) sobre a visão de diversos autores a respeito do movimento libertário das Minas Gerais.

Foi feito em parceria com os colegas Andre Luiz Santos Menezes Guimarães, Rafael Rocha Nunes e Ricardo Cerqueira Fernandes Dias. Esperamos que seja uma leitura agradável e útil. É sempre bom recordar!

Boris Fausto1 apresenta a Inconfidência Mineira como um movimento que tinha, ao mesmo tempo, origens na sociedade regional mineira e seus problemas bem como nas influências dos movimentos de libertação ocorridos no mundo, como a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa, e a apresenta ainda como um movimento de alcance limitado, que nem chega a realizar-se mas que, ao mesmo tempo, torna-se amplo em seu simbolismo e na apropriação do martírio de Tiradentes por aqueles que se opunham à monarquia.

Mas, as próprias definições aparentemente conflitantes de Fausto já demonstram que o tema é amplo e com muitas possibilidades. A quantidade de autores que se debruçam sobre ele, a mitificação construída em torno da figura de Tiradentes, as poucas informações existentes sobre sua figura não permitem a adoção de uma versão definitiva sobre o movimento, de forma que, neste trabalho selecionamos quatro obras de autores diferentes para, de forma bastante resumida e sucinta, apresentar suas visões, além de trazer ao conhecimento as formas como o movimento mineiro foi representado na arte, por meio de pinturas, e através do cinema em uma versão feita durante o regime militar, mas que escapou de sua censura.

Vamos, portanto, resumir o tema a partir da obra de Cândida Vilares Gancho e Vera Vilhena Toledo2 e trazer as interpretações de João Pinto Furtado3 e Kenneth Maxwell4 sobre o movimento e sobre a figura de Tiradentes, concluindo com as explicações de José Murilo de Carvalho5 sobre como vai ser formado o mito em torno da figura do alferes e como foi retratado no cinema em pleno regime militar.

A CONSPIRAÇÃO – A VISÃO DE GANCHO E TOLEDO

Gancho e Toledo6 definem a Inconfidência Mineira como uma conspiração para libertar Minas e o Brasil do domínio de Portugal e definem os seus mentores como homens pertencentes à camada mais alta da sociedade, que tinha um programa definido e um plano de ação para tomar o poder nas Minas Gerais.

Como antecedentes as autoras remontam às ações do Marquês de Pombal para mudar a política econômica da metrópole, visando diminuir a dependência da indústria têxtil inglesa, medidas que incluíam um estímulo à manufatura local e a colocação de residentes no Brasil (brasileiros ricos ou portugueses já estabelecidos no país) em cargos públicos, o que também visava reduzir o desvio de impostos, comprometendo estas pessoas com a coroa portuguesa. (GANCHO & TOLEDO, 1991 p. 28).

Entretanto, estas medidas criam uma elite que agora reunia condições e conhecimento econômicos, políticos e administrativos para deflagrar o movimento de independência pois, com a queda de Pombal, a política mudou, as manufaturas foram proibidas e adotou-se um maior rigor na arrecadação de impostos que consistiam no quinto, as avencas, a capitação, a derrama, e entradas, além do dizimo, que era cobrado para manter pontes e estradas. (pg 31).

Não será de estranhar que estas medidas causaram enorme desagrado entre as elites mineiras, somando-se a isso o governo corrupto de Cunha Menezes entre 1784 e 1788 e as ordens do novo governador, Visconde de Barbacena, de instaurar a derrama, visando eliminar as fraudes na arrecadação.

As autoras definiam os conspiradores como homens entre 40 e 50 anos, portugueses e brasileiros, muitos deles ricos mas devedores de enormes quantias à coroa, religiosos e militares que ambicionavam maior poder. A exceção desse perfil foi Tiradentes, que não era rico, não tinha propriedades, mas que desejava enriquecer. Por seu temperamento aparentemente intempestivo assume o papel do agitador que, por isso mesmo, era o que mais se expunha, não sendo, contudo, líder.

Desta forma os ricos eram Cláudio Manuel da Costa, Thomas Antonio Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Jose Álvares Maciel. Os padres eram José da Silva de Oliveira Rolim, Padre Carlos Correia de Toledo e Melo, Cônego Luis Vieira da Silva e Padre Manuel Rodrigues da Costa. E, por fim os militares, Tenente-Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade e Alferes Joaquim José da Silva Xavier.

Então, aguardando a instauração da derrama para lançar o movimento, quando esperavam contar com a indignação popular, os conspiradores se inspiravam na declaração de independência dos Estados Unidos embora não fossem anti-clericais. Também não pretendiam abolir a escravatura.

Seus planos eram a Proclamação da República com eleições anuais; a instalação de um parlamento na capital, subordinado a um parlamento principal; mudar a capital para São João Del Rei; criar uma bandeira nacional e abolir as restrições a extração de diamantes em Serro Frio. Tomás Antônio Gonzaga governaria a capitania nos três primeiros anos e depois haveria eleições. (pg 47).

Criariam a casa da moeda, a casa da pólvora, uma universidade em Vila Rica e uma siderúrgica. Destinariam dízimos aos padres da paróquia. Dariam um pagamento às mulheres do estado que gerassem mais filhos, incentivariam a manufatura local e, claro, perdoariam as dividas junto à fazenda real.

Os conspiradores esperavam, com apoio das tropas, lançar o movimento bloqueando os acessos à cidade, quando do lançamento da derrama, mas com a denúncia de Joaquim Silvério dos Reis a derrama não veio e culminou com o fim do movimento antes de ser lançado.

Com quase todo mundo preso, é instaurada em Vila Rica (e depois no Rio de Janeiro) a devassa, cuja principal acusação aos 34 réus era o crime de lesa-majestade, punível com a morte. Alguns morreram na prisão como Cláudio Manuel da Costa, outros ficaram presos nas masmorras do Rio de Janeiro por dois anos. (pg 51)

Em 1790 uma nova devassa foi feita por juízes vindos de Portugal e, depois de dois anos, foi lida a sentença que era um espetáculo de punição e clemência. Todos escaparam da pena de morte com exceção de Tiradentes. Os religiosos tiveram penas separadas, incluindo-se a imposição de silêncio e o exílio.

A execução de Tiradentes foi no Rio de Janeiro em 21 de abril de 1792 pela manhã, o corpo foi esquartejado e trazido para Vila Rica para ser exposto e servir de exemplo contra novos levantes. (pg. 53)


O TECER DE PENÉLOPE – A VISÃO DE JOÃO PINTO FURTADO

No trecho intitulado “Primeiras Palavras”, João Pinto Furtado7 faz uma reconstituição do que foi o movimento da Inconfidência Mineira (1788 – 1789) e, focando a figura de Tiradentes, seu integrante mais célebre, procura destacar a imagem na qual se reproduz no imaginário nacional, entre os embates intelectuais e políticos brasileiros: no campo político busca situar o movimento que supostamente procurou lançar as bases da nacionalidade brasileira; no campo intelectual afirma que foi um movimento encabeçado pela elite, de Vila Rica e abrigando, em seu interior, uma gama heterogênea de interesses; no campo do imaginário, o autor apresenta a construção de um “imaginário nacional”, partindo de Tiradentes e do desenrolar do movimento.

Para o autor as imagens que se produz da Inconfidência, principalmente de Tiradentes, relutam muito no campo do imaginário, pois são colocados como agentes que possibilitaram, e representaram, uma imposição do “Brasil” perante Portugal, oprimido ante opressor.

Segundo o autor essas são construções que necessitam uma melhor análise, afirmando que “é preciso ir além das aparências e visões consagradas, e retomar outras possibilidades de explicação. (p.13)

Por que Manto de Penélope? O autor recorre à mitologia, onde mostra a estória mitológica de Penélope, que desfazia e refazia seu manto para tentar manter seus votos nupciais com Ulisses. (p.13)

E como o manto, o autor procura explicar os processos de construção, desconstrução e reconstrução colocada pela historiografia em se tratando de Inconfidência Mineira.

Com essa linha de pensamento o autor mostra que a conspiração, que teve seu desenlace em 21 de Abril de 1792, esteve ligada ao apogeu e crise de uma capitania, Minas Gerais, que sempre foi cercada pelos maiores cuidados e vigilância por parte da coroa. Ele informa que foi nessa capitania que se deu, efetivamente, “a imposição do estado no Brasil, caracterizada no controle restrito do processo de mineração.

Furtado mostra que nas primeiras décadas do século XVIII, Minas Gerais passou por um processo de urbanização marcado pela desorganização no que concerne à ocupação das novas 14 vilas criadas no mesmo século.

E os imigrantes e migrantes não possuíam nenhuma raiz ou relação com a terra, obrigando-os a se adaptar das maneiras mais criativas, “às vezes bastante competitivas. (p.14)

E tal situação gerou um ambiente nada pacífico e ordeiro, no ponto de vista político. Segundo o autor nas primeiras décadas do século XVIII, a chuvosa e fria região central mineira ‘evaporava tumultos’, ‘exalava motins’, ‘trocavam desaforos’, quando não ‘vomitavam insolências’”. (p.15)

O autor coloca que a coroa portuguesa teve a necessidade de se adaptar às novas realidades, onde os novos habitantes, com o desejo de enriquecer rapidamente, tentavam fugir da ação limitadora do estado, presente na cobrança de impostos, sobre o ouro, principalmente.

E, dentro desse contexto de arrecadação, configuravam-se novas modalidades de cobranças sobre o ouro. Ele aponta três métodos de arrecadação do quinto, aplicado durante o século XVIII: A separação de 20% do peso total e a colocação do selo real; o método de captação e o método por estimativa.

O fator tributário foi o principal expoente de conflitos que ocorreram em diferentes décadas do século XVIII, mostrando também a “imposição do estado” como grande deflagrador de vibrante reação do povo da capitania: A Guerra dos Emboabas; a Revolta de Felipe dos Santos e a Inconfidência Mineira. E Furtado mostra, muito bem que as questões tributárias e fiscais foram dois motivos principais de confronto nessa época. (p.21)


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O TECER DE PENÉLOPE – A VISÃO DE JOÃO PINTO FURTADO - Cont...
Furtado nos esclarece que no século XVIII ocorreram inúmeros conflitos, onde se percebe que diferentes interesses, percepções e tentativas de apropriação política do espaço sócio-econômico das Minas Gerais, estiveram no centro dos acontecimentos.
E que o movimento de Inconfidência Mineira foi marcado com traços bastante heterogêneos, onde estavam em jogo não somente as questões mais gerais, uma emancipação de Portugal, mas também interesses individuais dos mais variados possíveis.
No capítulo intitulado “Monumentos”, o autor discute as formas simbólicas do movimento em diferentes épocas. Mostrando como as “imagens” moldam um discurso em determinadas fases da historiografia brasileira, para Furtado, “mais do que simples fatos históricos, portanto, o evento em questão transformou-se em importante ferramenta simbólica para pensar algumas questões em diferentes situações mais contemporâneas”. (p.32)
Na primeira metade do século XIX, anos 20 e 30, observa-se uma apropriação e exaltação da Inconfidência Mineira como uma tentativa de libertação nacional, como se constituísse em um “pré-Ipiranga”. 
A partir da década de 1870, o evento ganha novo formato, uma inspiração republicana original, transformando Tiradentes e a Inconfidência Mineira em modelo pedagógico e formador do cidadão por excelência.
Na Revolução de 1930, sobretudo no discurso, notadamente das elites urbanas, percebe-se o resgate da proposta industrializante dos inconfidentes e Tiradentes é colocado como precursor da luta anti-oligárquica. No período populista, a Inconfidência simboliza a conciliação entre a modernidade e a ordem.
Já nos precedentes do golpe de 1964, alguns políticos mineiros se auto-intitulavam “novos inconfidentes”. São essas, segundo o autor, as principais apropriações simbólicas, no campo político, do movimento de 1788-9.
Na esfera cultural o autor analisa a contribuição da obra cinematográfica Os Inconfidentes, de 1972, do diretor Joaquim Pedro de Andrade. Segundo Furtado:
O filme é uma sofisticação de linguagem, precisão técnica e certo pendor crítico quanto a ação dos intelectuais na conjuntura dos anos de 1970, além de alguma ironia e sarcasmo quanto a apropriação anacrônica do tema da Inconfidência Mineira. (p.33)
Outra contribuição na discussão acerca da apropriação simbólica da imagem de Tiradentes é colocada por Sérgio Buarque de Holanda, na qual Furtado faz referência.
O historiador levanta questionamentos acerca do aspecto representativo da aparência do inconfidente, mostrando o aspecto físico de um agente histórico e seu tratamento pela memória. Segundo Furtado, “ele não renega ou desqualifica o trabalho da memória, utiliza este como ponto de partida e ir mais além”. (p. 39)
Com o sub-tópico “Inconfidências dos Inconfidentes”, Furtado questiona a historiografia regional mineira, que mostra de forma quase romântica os membros do levante de 1788-9, principalmente a figura de Tiradentes, colocado como herói, sem apontar os “defeitos”, entre os quais estão incluídas práticas nada cristãs.
Segundo Furtado, o objetivo “é tentar mostrar uma face menos conhecida dos inconfidentes [...] homens e atos que fundaram nossa nacionalidade”. (p.40)
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Dentro das características colocadas por Furtado1 vamos mostrar as que mais se destacam em alguns inconfidentes. Inácio José de Alvarenga Peixoto, poeta sensível, bacharel ilustrado e homem de hábitos refinados, possuía vários escravos e não deixava de instigar alguns homens com os quais ele negociava, pois, segundo o autor, “sistematicamente empregava várias desculpas na hora de arrolar os pagamentos”. (p. 40)
Francisco Antônio de Oliveira Lopes, estava na contramão dos inconfidentes, pois apesar de possuir grande riqueza, não tinha o perfil erudito, “era semi-analfabeto e não possuía um único livro”. (p.41)
O Tenente-Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade só tinha em mente os próprios interesses pessoais, com expectativa de alcançar status ainda maior na possível nova ordem. 
Inácio Correa Pamplona era chefe de jagunços que combatiam índios e caçavam negros fugitivos cortando pares de orelhas para demonstrar êxito na empreitada.
Joaquim Silvério dos Reis, traidor, que passou para história como referência de corrupção moral e de costumes, conseguiu um prodigioso enriquecimento ao chegar à América Portuguesa, utilizando a denúncia do levante como uma estratégia de obtenção de lucro. (p. 42)
Tomás Antônio Gonzaga tinha ligações diretas com Luís da Cunha Meneses, o fanfarrão Minésio, que tanto criticava, em suas Cartas Chilenas.
Para Tiradentes, Furtado separou um compartimento especial: recebeu queixas do padre Domingos Vital Barbosa Lage, por usar violência, tirania e arbitrariedade contra um clérigo a mando de Luís da Cunha Meneses.
Tinha também como projeto abandonar a carreira militar, (que oferecia baixo soldo) para se tornar empregador de obras e dono de moinhos, que ofereciam expectativas de lucros, mostrando que os inconfidentes, e seus interesses, estavam ligados à sua própria ascensão no plano econômico.
Em outro sub-tópico, intitulado “Diálogo com a Historiografia”, Furtado confronta as proposições de quatro historiadores, de diferentes épocas, com o objetivo de mostrar como a questão relacionada com a Inconfidência Mineira é colocada de maneira insuficiente e superficial, e “como esses textos delimitaram (limitaram) um campo de discussão do qual a maior parte dos historiadores que se seguiram foram tributários”. (p. 49)
Procura mostrar como em diferentes períodos a historiografia se apropriou de questões sobre a Inconfidência Mineira. Analisa o problema da crítica documental e as interpretações presentes em algumas dessas obras historiográficas, tomando como ponto de partida um diálogo crítico. Os teóricos relacionados são: Joaquim Norberto de Souza e Silva (1820-91); Lúcio José dos Santos (1875-1944); Kenneth Maxwell (1941); e Márcio Jardim (1952).
Inicialmente Furtado analisa o processo de obscurecimento em torno dos aspectos importantes da Inconfidência Mineira. 
Com Joaquim Norberto e Lúcio Santos inaugura-se o tema, preservando um tipo de construção narrativa baseado nos procedimentos instituídos do processo judicial: estabelecem os antecedentes (o contexto do crime); a prioridades das idéias (o principal culpado); a conspiração (planos e ações imediatas); a natureza da transformação (a natureza do crime); os agentes (os cúmplices); a traição (a denúncia e o indiciamento); e a repressão (a prisão, o inquérito, e a condenação). 
Para Furtado esses autores se tornaram tributários, e não dão conta da diversidade de interesses e concepções possivelmente presentes no movimento.
Para confrontar esses autores, Furtado levanta a questão acerca do destino dado ao Visconde de Barbacena, governador de Minas Gerais na época do levante. 
Segundo Furtado, Joaquim Norberto defende a hipótese que Barbacena é simplesmente expulso de Minas Gerais. 
Lúcio dos Santos mostra que Barbacena seria morto se oferecesse alguma resistência. Márcio Jardim, baseado em depoimentos de os Autos da devassa Inconfidência Mineira, conclui que provavelmente “a decisão penderia para sua morte”. (p, 51)
Kenneth Maxwell também menciona em seus textos os planos de execução como o fim mais provável.
Furtado coloca que discussões acerca da natureza e o sentido do levante não ocorreram entre os debates historiográficos. 
A denominação de reformistas ou regenerados, revolucionários e liberais, afirma que não é possível decidir essa “natureza-sentido” sem um novo exame da Inconfidência Mineira de 1788-9. Propõe uma leitura “extremamente seletiva, e bem orientada para ação, acerca das transformações que passava o mundo”. (p. 54)
O TECER DE PENÉLOPE – A VISÃO DE JOÃO PINTO FURTADO - Cont...
Para Furtado os homens da sociedade setecentista passavam por um período de transição, e não tinham certeza sobre determinado curso da história. Furtado coloca em questionamento a ideia de que os inconfidentes se influenciaram pelos princípios da revolução francesa. Para ele os conspiradores não tinham notícias dessa revolução quando realizavam seus “conventículos”, pois “não era ocidental ou atlântica”. (p.54)
Para Furtado a Inconfidência não era uma revolução como a dos franceses, pois não representa um marco de referência e ruptura.
Furtado critica as estratégias metodológicas dos historiadores, que realizaram trabalhos que contribuíram para construção de uma ideia de um suposto projeto nacional e representativo do movimento. Em Joaquim Norberto, o autor coloca o esforço empreendido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, principalmente no século XIX, criando um conceito de nação.
Em Lúcio dos Santos, preocupasse com a identidade regional mineira, como elemento de construção da nação com o lugar reservado a Minas Gerais na identidade Nacional. Márcio Jardim valoriza aspectos do sistema representativo e o liberalismo supostamente vigente entre os inconfidentes.
Com Kenneth Maxwell, demonstrou que a historiografia da Inconfidência Mineira ainda é passível de um esforço de renovação, mostrando que o movimento de 1788-9 poderia apresentar novas facetas.
Adotando uma visão unilateral do movimento em dimensão política, definindo-o como uma espécie de manifestação de protesto nativista de uma “plutocracia local”, constituída somente por oligarcas endividados em defesa de seus cabedais. (p.57)
No último sub-tópico denominado “Fonte, Registros e Publicação”, João Pinto Furtado nos diz do tratamento dispensado às fontes que informaram sobre o evento de 1788-9, mostrando a partir de duas devassas como se configurou o cenário de julgamento dos revoltosos.
Colocando a relação estabelecida entre o poder público e o processo de geração, classificação, conservação e exposição dos elementos, tanto de cultura material como as produções historiográfica e documental relativa ao evento. E chama a atenção em relação ao zelo com que o poder público lida com a memória relativa à Inconfidência Mineira.
Furtado coloca a importância relativa à contribuição da devassa (investigação e apuração dos fatos, para averiguar possíveis irregularidades) que apurou os fatos, também como os problemas judiciais foram envolvidos.
Os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira foram produzidos a partir de 7 de maio de 1789, no Rio de Janeiro, e em 12 de Junho, do mesmo ano, em Minas Gerais. A coleção dos Autos da Devassa da década de 1970, constituída por dez volumes, contém quase toda a documentação referente ao processo instaurado a partir de 1789, além dos inúmeros documentos anexos.
No volume I dos Autos da Devassa são apresentadas as documentações dos depoimentos referentes à formação da culpa. Há observações muito elucidantes no que respeita aos exames dos acontecimentos relacionados à América Inglesa. O volume II, contém as principais inquirições e confrontamentos da Devassa de Minas Gerais.
No volume III dos Autos, destaca-se a reprodução da compilação das leis constitutivas das colônias inglesas, confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América Setentrional, editado por Claude Ambrose Regnier.
Nos volumes IV e V, inicia-se a documentação referente à Devassa aberta no Rio de Janeiro. Mantida e incorporada por toda a parte concernente à formação de culpa e apensos (vol. IV), os devassantes vão procurar retomar os interrogatórios (vol. V).
Sobre o Volume VI afirma ser:
principal manancial de onde podemos extrair e expor informações sobre os móveis econômicos em inserção produtiva dos agentes envolvidos na Inconfidência Mineira. Como também as relações dos bens seqüestrados e suas respectivas avaliações. (p.72)
O Volume VII apresenta os procedimentos finais do processo: termos de encerramento e remessa, defesa e proclamação da sentença, apresentação dos primeiros e segundos embargos, certidões e documentos diversos e notícias das providências tomadas.
Os volumes VIII e IX, (relativamente pouco explorados pela historiografia), trazem, para Furtado, as fontes mais valiosas no que respeita a reflexão sobre a avaliação externa do evento. O volume X se constitui apenas do índice consolidado nos demais volumes.
Outra fonte trabalhada pelo autor é o primeiro Anuário do Museu da Inconfidência (1950-4). O anuário tinha como política a transcrição, publicação e divulgação de documentos, do acervo do museu ou de outras instituções, alusivos à Inconfidência Mineira. 
Para Furtado "os documentos relativos à Inconfidência Mineira, em especial os que se publicaram na edição dos Autos da Devassa, constitui hoje um dos nossos principais "lugares de memória" (p. 73). 
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A DEVASSA DA DEVASSA – A VISÃO DE KENNETH MAXWELL
Assim como a obra anteriormente analisada, Maxwell8 vai focar os antecedentes do movimento na atuação de Pombal e as relações entre Portugal e a Inglaterra dando, também, um panorama geral sobre a situação no Brasil da época.
A crise do ouro vai gerar desenvolvimento tanto na metrópole quanto em sua colônia num movimento de busca da substituição das importações e o surgimento de uma burguesia que vai se fortalecendo.
Com a morte do Rei, a queda de Pombal e a mudança na política econômica, o autor coloca que a Inconfidência Mineira era só questão de tempo e a década de 1780 era a época quase obrigatória para que se desse, considerando o desastre da política e os novos interesses coloniais.
Neste contexto Maxwell apresenta Vila Rica como centro de economia dinâmica e de intelectuais, mas desmistifica os inconfidentes mostrando que eram apenas pessoas da elite, cheias de dívidas e, por conseguinte, em conflito com o governo.
O autor é bem detalhista nas descrições de horários, cenários e dívidas, apresentando a tese de que as motivações eram pessoais, de que o povo e o nacionalismo eram invocados, somente, como justificativa em que a mudança de forma de governo e a independência seriam apenas o caminho para se libertarem dos próprios problemas.
Maxwell ainda apresenta a tese de que a denúncia de Joaquim Silvério dos Reis é posterior à suspensão da derrama e que este teria apresentado sua denúncia prenunciando o fracasso do movimento tentando, portanto, conseguir o perdão de suas dívidas.
Quanto à abolição dos escravos, Maxwell discorda da tese de que não seriam libertados, ele defende que escravos nascidos no país seriam livres embora comente que apesar da disposição para emancipar os escravos nascidos no país, em si uma proposição estarrecedora para 1789, (...) as repercussões deste gesto eram subestimadas.”(MAXWELL, 2001: 155)
Outra tese levantada pelo autor é de que Cláudio Manoel da Costa foi assassinado e não suicidou-se e, por fim, ele apresenta Tiradentes como o bode expiatório por excelência, que buscava ascensão social, que era mantido de fora das principais decisões, servindo apenas para o exercício de funções práticas e que apenas a sua morte espetacular reuniu as condições para fazer dele um símbolo.
Contudo, Maxwell louva a coragem do personagem ao defender a República e a Independência em seus depoimentos, que, somadas às circunstâncias, puderam contribuir para mitificá-lo.
Kenneth Maxwell parece definir a Inconfidência como paradigmática pois, em meio a outras revoltas que deram até mais resultado, ou pelo menos conseguiram ser deflagradas, a de Minas Gerais é que teve como resultado permitir que nada mais fosse como antes.

TIRADENTES NO CINEMA
“OS INCONFIDENTES – 1972”
Dirigido por Joaquim Pedro de Andrade o filme Os Inconfidentes (1972), com José Wilker no papel de Tiradentes, faz uso, em seu roteiro, dos Autos da Devassa, A Poesia dos Inconfidentes - Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga - e o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. O roteiro foi escrito pelo próprio diretor em parceria com Eduardo Escorel e embora um documento oficial figure entre as fontes, a obra não pode ser vista como um filme histórico comum.
No ano de seu lançamento, em que se comemoravam os 150 anos da Independência, com o Governo Médici fazendo uso do AI-5 com muito empenho, podemos notar que a figura de Tiradentes e seus parceiros é meticulosamente destruída. O alferes é motivo de piada e desconfiança por parte de todos, gabolice e covardia, interesses e ingenuidade são a tônica dos “heróicos” encontros dos rebeldes, alguns deles mostrados como donos de escravos.
A figura de Tiradentes é demolida e arrastada pelo chão, tentando, a princípio, negar suas atitudes, para depois surgir assumindo a culpa de tudo. O filme é conduzido para a cena da execução que se faz como uma representação teatral e os últimos momentos trazem imagens de desfiles e eventos cívicos em Minas Gerais, com a narrativa de um locutor típico do regime militar, aparente tentativa de ser irônico e, ao mesmo tempo, satisfazer aos censores do governo.
Assim sendo notamos, por todas estas visões, que Tiradentes é um mito construído atendendo a interesses específicos de um grupo e de uma época. Notamos ainda que este mito vem sendo desconstruído por todos os historiadores que se debruçam sobre o tema, mesmo que suas visões sejam, muitas vezes, divergentes. Os grupos agora são outros, novos interesses de uma nova época.
FIM


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


ANDRADE, Joaquim Pedro de. Os Inconfidentes. Filmes do Cerro. 1972

CARVALHO, José Murilo de. Tiradentes: Um Herói para a República in: A Formação das Almas. Cia. das Letras.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. (6ª ed.) São Paulo: Edusp, 1998

FURTADO, João P. O manto de Penélope; História, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9. (1ª ed.) São Paulo: Cia das Letras, 2002

_________________. Verbete Inconfidência Mineira. Disponível em:
http://www.fafich.ufmg.br/pae/apoio/verbeteinconfidenciamineira.pdf
Cap. em: 13/10/2009

GANCHO, Cândida Vilares; TOLEDO, Vera Vilhena de. Inconfidência mineira. São Paulo: Ática, 1991.

MAXWELL, Kenneth. A Devassa da Devassa: A Inconfidência Mineira, Brasil - Portugal, 1750-1808. (1ª. ed. 1973). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

1FAUSTO, Boris. História do Brasil. (6ª ed.) São Paulo: Edusp, 1998

2 GANCHO, Cândida Vilares; TOLEDO, Vera Vilhena de. Inconfidência mineira. São Paulo: Ática, 1991.

3 FURTADO, João P. O manto de Penélope; História, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9. (1ª ed.) São Paulo: Cia das Letras, 2002

4 MAXWELL, Kenneth. A Devassa da Devassa: A Inconfidência Mineira, Brasil - Portugal, 1750-1808. (1ª. ed. 1973). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

5 CARVALHO, José Murilo de. Tiradentes: Um Herói para a República in: A Formação das Almas. Cia. das Letras.

6GANCHO, Cândida Vilares; TOLEDO, Vera Vilhena de. Inconfidência mineira. São Paulo: Ática, 1991.

7FURTADO, João P. O manto de Penélope; História, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9. (1ª ed.) São Paulo: Cia das Letras, 2002

8MAXWELL, Kenneth. A Devassa da Devassa: A Inconfidência Mineira, Brasil - Portugal, 1750-1808. (1ª. ed. 1973). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

9CARVALHO, José Murilo de. Tiradentes: Um Herói para a República in: A Formação das Almas. Cia. das Letras.


1FAUSTO, Boris. História do Brasil. (6ª ed.) São Paulo: Edusp, 1998

2 GANCHO, Cândida Vilares; TOLEDO, Vera Vilhena de. Inconfidência mineira. São Paulo: Ática, 1991.

3 FURTADO, João P. O manto de Penélope; História, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9. (1ª ed.) São Paulo: Cia das Letras, 2002

4 MAXWELL, Kenneth. A Devassa da Devassa: A Inconfidência Mineira, Brasil - Portugal, 1750-1808. (1ª. ed. 1973). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

5 CARVALHO, José Murilo de. Tiradentes: Um Herói para a República in: A Formação das Almas. Cia. das Letras.

6GANCHO, Cândida Vilares; TOLEDO, Vera Vilhena de. Inconfidência mineira. São Paulo: Ática, 1991.

7 FURTADO, João P. O manto de Penélope; História, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9. (1ª ed.) São Paulo: Cia das Letras, 2002

8 MAXWELL, Kenneth. A Devassa da Devassa: A Inconfidência Mineira, Brasil - Portugal, 1750-1808. (1ª. ed. 1973). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

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