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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A VITORIA CRISTÃ EM ROMA



COMO O CRISTIANISMO TRIUNFOU EM ROMA - I
Nesta nova minissérie que iniciamos, vamos recontar, mui resumidamente como sempre, como o cristianismo deixou de ser a religião dos oprimidos para se tornar a fé dos outrora opressores no Império Romano.
O período em questão foi, paradoxalmente, um dos momentos de maior perseguição aos cristãos.
E, também de forma paradoxal, foi um dos maiores algozes da cristandade quem tomou medidas que acabaram por possibilitar a ascensão, ao trono, daquele que viria a libertar os cristãos da perseguição.
Primeiro, nos referimos a Diocleciano, o grande perseguidor. Depois, a Constantino, o libertador. Convém, portanto, ir por partes pois, na escrita da História, os primeiros não são estudados por último! Quem foi Diocleciano?
Quando o Império Romano se tornou cristão, passando a venerar o Deus Único, essa não era a primeira experiência monoteísta que vivenciava.

Para Ivar Lissner, em sua obra “Os Césares”1, foi uma espécie de monoteísmo o que ocorreu após a vitória do Imperador Aureliano sobre a Rainha Septímia Zenóbia, de Palmira na atual Síria (cujas ruínas foram atacadas pelo Estado Islâmico).
Septimia Zenóbia perante Aureliano
O autor afirma que a devoção de Aureliano pelo deus Sol Invicto, colocou esta divindade acima de todas as demais: “Esse culto do Sol, por Aureliano venerado, exaltando um deus único, demonstra a evolução, bastante surpreendente da inteligência antiga.” (pg. 448).
Após a morte de Aureliano, porém, assassinado após um ardil tramado por seu secretário, a instabilidade reinou no império até a ascensão de Diocleciano em 17/11/284 d.C., quando foi proclamado pelos soldados em Nicomédia. Ele foi o último imperador resolutamente pagão.
O novo imperador é descrito por Lissner como um homem mais voltado ao cotidiano e seus conflitos do que aos grandes feitos. Como consequência, o novo imperador foi um organizador tão competente que permitiu ao Império Romano ganhar uma sobrevida.
Continua...
1 LISSNER, Ivar. Os Césares – Apogeu e Loucura: Tradução de Oscar Mendes. Belo Horizonte: Itatiaia, 1964.


COMO O CRISTIANISMO TRIUNFOU EM ROMA - II
O status de Roma como capital estava, à época, abalado, considerando que vários imperadores pouco permaneciam na cidade, diante da necessidade de suas presenças em diferentes pontos de crise do império.
Segundo Lissner2, Diocleciano, por exemplo, manteve sua corte em Nicomédia e seus antecessores mais próximos, de reinados muito curtos, nem chegaram a pisar em Roma enquanto imperadores. Foram nomeados e mortos fora da capital:
Roma, a cidade caprichosa, mimada, cruel, empanturrada de triunfos, a cidade das arenas, dos teatros e das termas grandiosas, entrava na sombra. (pg. 453)
Neste período, o título “César” já não se aplicava ao Imperador propriamente, que utilizava o título de Dominus (Senhor), acompanhado de Augustus.
Lissner informa que, em 285 d.C., Diocleciano nomeou Maximiniano como César, encarregando-o de governar a Gália e, no mesmo ano, concedeu-lhe o título de Augustus, fazendo-o Co-Imperador. (pg. 452)
O Império Romano tornava-se, novamente, uma diarquia, experiência que não era nova. E a parceria deu excelentes resultados, como a vitória sobre os “... burgúndios, os alemães, os francos, os sármatas, os godos e os árabes.”(pg. 453)
Apesar disso, Diocleciano percebeu que seria preciso descentralizar ainda mais o governo e nomeou dois Césares, um para cada Augusto. Na prática, cada imperador ganhava um auxiliar de luxo.

Os nomeados foram Galério, César de Diocleciano, enviado à Gália, e Constâncio Cloro, César de Maximiniano, enviado ao Sul do Danúbio.
Diocleciano - Maximiniano - Galério - Constâncio Cloro
Nesse novo arranjo, cada Augusto adotou seu César como filho, tornando-os sucessores. Para tal estes foram obrigados ao divórcio e ao casamento com as filhas dos imperadores.
Também foi fixado um prazo de vinte anos para que os Augustos pudessem renunciar em favor dos Césares. O trabalho tornou-se bem mais organizado e rendeu excelentes frutos. O império respirava novamente.
2 LISSNER, Ivar, Os Césares - Apogeu e Loucura: Trad. de Oscar Mendes. Belo Horizonte: Itatiaia, 1964.
COMO O CRISTIANISMO TRIUNFOU EM ROMA – III
A reorganização de Diocleciano tirou o império da UTI.
Por outro lado, a reorganização do exército, a criação de uma força reserva e as obras públicas das quatro novas capitais, onde residiam os tetrarcas, e na própria Roma, demandavam enormes somas de dinheiro, que devia vir das províncias.
A descentralização do poder levou a uma imensa pressão burocrática e arrecadatória sobre os funcionários públicos e a população de uma forma geral, com exceção dos moradores de Roma, que eram isentos de impostos.
Para piorar, a medida de fixar preços e salários por todo o império, que na prática era um congelamento, só gerou inflação e retração da atividade comercial.
E a História Contemporânea mostra que, em momentos de grave crise econômica, a população, sempre bem orientada pelos aproveitadores, tende a buscar culpados sobre quem descarregar as frustrações.
E quem eram os bodes expiatórios perfeitos para as mazelas de Roma?Os Cristãos, é claro!
Além da decadência econômica, os últimos anos de Diocleciano à frente do império foram de perseguição aos seguidores de Cristo.


Os cristãos estavam, novamente, na mira do Império Romano.
Diferente dos ciclos persecutórios anteriores porém, desta vez a infiltração cristã no aparelho estatal romano era muito maior. Lissner3 afirma que “...o próprio palácio imperial estava “minado” pelo ideal cristão.”(pg. 461).
O ataque romano, que foi iniciado com demissões de funcionários cristãos que não abjuraram sua fé, logo descambou para a demolição de igrejas. E o erguimento de fogueiras para assar pessoas.
Mas, também diferente dos períodos anteriores, essa perseguição aos cristãos gerou reações. O próprio palácio do Imperador foi incendiado duas vezes, com a autoria atribuída aos cristãos, embora Lissner informe que o César Galério teria sido o autor dos incêndios para instigar ainda mais a caça aos seguidores do cristianismo.(pg.462)
A perseguição se intensificou mas, a despeito disso, a fé cristã cresceu, assim como as demonstrações de total desprendimento dos fiéis, que preferiam a morte à renúncia de sua crença.

Segundo Lissner, a própria esposa de Diocleciano, Prisca, e sua filha Valéria, “...convencidas da pureza e da veracidade das ideias cristãs, tinham-se secretamente convertido.”(pg. 463)
Prisca - Valéria
Logo, porém, funcionários do palácio, dos mais altos aos menores, bispos e outros cristãos estavam sendo cruelmente torturados e mortos.
Mas, se por um lado foi liberado o pior instinto, por outro também surgiu a piedade em muitos romanos. Lissner cita casos em que os cristãos foram auxiliados ou que as ordens de conversão forçada e morte eram cumpridas apenas em parte.(pg. 463)
Neste caso, os dois césares estavam em campos opostos. Galério era um perseguidor implacável, enquanto Constâncio evitava qualquer execução de cristãos sempre que possível.
Aproximava-se o momento em que o poder seria dividido entre ambos.
Continua...
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